“Em momento algum pensei em desistir”, diz paciente que venceu o câncer de mama

cancer-de-mama-pacienteIngrid Cassiene Klass, 29, nunca teve em sua família um caso de câncer. Quando um pequeno nódulo benigno apareceu em seu seio aos 24 anos de idade, jamais imaginou que pudesse se tratar de um câncer de mama.

Depois de dois anos de exames e acompanhamento médico, o nódulo que Ingrid descobriu ao se coçar depois que adquiriu uma alergia transformou sua vida ao se revelar maligno.

De casamento marcado, cheia de sonhos e planos, a professora e psicopedagoga se descobriu desesperada. Mas foi no amparo do noivo, amigos, família e no amor pela vida que encontrou forças para lutar contra o câncer.

Hoje, a pedagoga, casada há dois anos, entrega lenços aos pacientes que estão em tratamento de câncer de mama por meio da campanha “Lenço Amigo”, que criou inspirada pelo calor humano que sentia quando recebia lenços na época em que estava tratando do seu câncer.

Em entrevista exclusiva à redação do blog da Clinipam, Ingrid conta como foi lidar com uma doença tão assustadora, vencê-la e também sobre a transformação que essa vitória trouxe para sua vida.

COM QUANTOS ANOS VOCÊ DESCOBRIU O CÂNCER DE MAMA? COMO O DESCOBRIU?

Foi aos 24 anos. Jamais me preocupei com minha saúde, que sempre foi ótima. No entanto, uma simples bolinha, pequena como um grão de azeitona, mudou meu conceito para sempre.

Depois que minha alergia passou, a bolinha que descobri no seio ficou, foi quando me preocupei. Mas ela não doía e não incomodava. Depois que solicitei exames, os médicos me disseram que o nódulo precisava ser investigado. Passei, então, ao acompanhamento junto a um mastologista.

Ao descobrir que se tratava de um nódulo benigno, passei a verifica-lo a cada quatro meses, a pedido do médico.

Depois de quase dois anos sem demonstrar nenhuma mudança em seu tamanho, o nódulo começou a crescer, coçar e doer bastante. Foi aí que decidi retirá-lo e novos exames revelaram que se trava de um nódulo maligno no meu seio, o câncer de mama. Eu tinha acabado de completar 27 anos de idade.

Seguiram-se seis meses de quimioterapia e, então, marcada a cirurgia. Correu tudo bem e o nódulo foi retirado com sucesso por meio do procedimento chamado Quadrantectomia. Foram retirados quatro linfonodos (gânglios linfáticos)! Mas a luta ainda não havia acabado. Por um ano fiz tratamento com radioterapia e hoje ainda tomo remédio.

O QUE PASSOU PELA SUA CABEÇA QUANDO SOUBE? COMO VOCÊ REAGIU?

Receber um diagnóstico de câncer é desesperador. Por não ter nenhum caso na minha família, eu nunca imaginei que pudesse ter câncer. Minha vontade era acordar logo daquele pesadelo! Ouvi com muita calma tudo que foi explicado sobre a doença e sobre o tratamento, mas depois chorei muito, me desesperei. Em alguns momentos perdi a fé, esperança e um medo enorme tomou conta de mim. Foi quando pensei na quantidade de crianças que enfrentam esse tratamento, muitas vezes com sorrisos estampados em seus rostos nos momentos menos doloridos. Comigo não seria diferente! Nesse momento foquei no que mais amo: viver! Decidi lutar com todas as minhas forças para me curar o quanto antes.

Meu marido – na época noivo – me acompanhou na consulta. Levamos um choque, passamos alguns dias pensando em tudo que teríamos que enfrentar e depois começamos aos poucos a contar para a família e amigos. Foi um choque muito grande, todos ficaram muito tristes e percebi que aquela batalha já não era só minha e do meu noivo, era de todos nós. Senti o carinho imenso de todos me apoiando e mostrando diariamente o quanto eu era importante e o quanto eu não estava sozinha.

Jamais questionei por que aquilo estava acontecendo comigo, pois sei que o câncer não escolhe nada, nem ninguém. Ele apenas aparece. Mas minha vontade de viver era maior que tudo!

VOCÊ FAZIA OS EXAMES COM FREQÜÊNCIA?

O único exame que fazia com frequência antes de descobrir que estava doente era o preventivo e algumas poucas vezes exames de sangue. Quando somos jovens, achamos que ficar doente é apenas para os mais velhos.

COMO FOI O SEU PROCESSO DE ACEITAÇÃO E TRATAMENTO? COMO AMIGOS E FAMÍLIA REAGIRAM?

Em momento algum pensei em desistir. O apoio, principalmente do meu marido e da minha avó (que é como uma mãe para mim, pois minha mãe já faleceu) foi fundamental. Recebia carinho diariamente, visitas, telefonemas, cartinhas, vídeos da família, amigos, colegas de trabalho, alunos, pais de alunos. Isso é fundamental! Me senti viva! Importante! Busquei ajuda nesses carinhos, nas pessoas que me faziam sentir tão bem em um momento tão difícil. Tive pessoas fantásticas que se aproximaram muito de mim, outras que se afastaram, não sei se por medo ou insegurança.

DURANTE A PREPARAÇÃO PARA A CIRURGIA VOCÊ FICOU ASSUSTADA? COMO SE PREPAROU?

Eu não pensei muito pelo lado trágico de me imaginar sem o seio. Sempre tentei ver algo positivo em tudo isso. Eu pensava que se precisasse retirar toda a mama, não teria problema. Primeiro por que já vi uma reconstruída e é perfeita, segundo por que seria a grande chance de colocar o silicone que sempre quis.

Acho que a queda do cabelo mexeu muito mais comigo, pois a mama você tem como esconder e o cabelo não. É um marco muito grande da doença, momento em que você perde a sua identidade. Mas costumo dizer que é um momento de você se redescobrir, se autoconhecer e ver a grande guerreira e bela mulher que você é.

DEPOIS DE RETIRADO O NÓDULO, COMO FOI SUA RECUPERAÇÃO? QUE TIPO DE MUDANÇAS ESSA EXPERIÊNCIA TROUXE PARA SUA VIDA?

Retirar o nódulo foi um alívio muito grande. A cirurgia foi um sucesso e não precisei retirar o seio. A recuperação foi bem tranquila. Hoje em dia tenho uma vida normal, como a de qualquer outra pessoa. Faço exames regularmente a cada três meses e tomo um remédio toda noite – pelos próximos 10 anos, mais ou menos.

Depois do câncer, aprendi a me amar mais, me admirar. Aprendi realmente a viver e valorizar pequenos instantes, estar com as pessoas que realmente amo e dizer isso a elas. Aprendi a ver a vida de uma maneira minuciosa. Descobri que a vida pode passar diante dos seus olhos da noite para o dia e você perceber que não está vivendo para você e sim para os outros. Então aprendi a pensar mais em mim.

Gosto muito de uma frase que resume tudo isso, de um poeta chileno chamado Pablo Neruda: “Vivo cada dia como se fosse cada dia. Nem o último, nem o primeiro. Simplesmente o único”.